terça-feira, 12 de junho de 2018

A REGULARIDADE FORMAL DA APELAÇÃO NO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

A regularidade formal da apelação está prevista no artigo 1.010, segundo o qual ela será interposta por petição dirigida ao juízo de primeiro grau e conterá os nomes e a qualificação das partes, a exposição do fato e do direito, as razões do pedido de reforma ou de decretação de nulidade, bem como o pedido de nova decisão. Considerando que a apelação é interposta perante o juiz da causa, mas que a competência para julgá-la pertence ao tribunal local (tribunal de justiça ou tribunal regional federal), o apelante deve compor duas petições e, anexando-as, submetê-las a protocolo na mesma oportunidade. A primeira petição deve ser endereçada ao órgão judicial do qual emanou a decisão recorrida e conter a identificação das partes, no que se compreendem os respectivos nomes e os dados pessoais referenciados no inciso II do artigo 319, admitindo-se, em relação a estes, a simples remissão quando já constarem dos autos. A apelação propriamente dita deve ser endereçada ao tribunal competente para o julgamento do recurso e reunir os demais requisitos exigidos pelo mencionado dispositivo legal, assim a exposição do fato e do direito, as razões do pedido de reforma ou decretação de nulidade, o pedido de nova decisão e, quando exigidos, os comprovantes de recolhimento do preparo e dos respectivos portes. A exposição do fato consiste na narrativa do evento ocorrido no mundo naturalístico, do qual derivou o litígio que ensejou a instauração do processo, isto é, a descrição da causa de pedir remota da ação processual. Por sua vez, a exposição do direito envolve a identificação do direito que o autor supõe aplicável ao fato descrito, isto é, a fundamentação jurídica que constitui a causa próxima do pedido inicial. As razões do pedido de reforma ou decretação da nulidade consistem na motivação do recurso, o que implica demonstração do erro de fato ou de direito, de julgamento ou de procedimento, em que o juiz da causa incorreu ao proferir a decisão. Porque a devolutividade da apelação não possui limites, senão aqueles impostos pela pretensão recursal formulada em atenção às balizas impostas pelo pedido autoral e a resposta do réu, a dialeticidade atribuível a este recurso pode abranger a revisão dos fatos postos para julgamento, o reexame das provas produzidas, a conferência das presunções realizadas pelo juiz, a verificação da existência e da validade de um ou mais atos procedimentais, a crítica às regras legais empregadas na solução do processo, à interpretação destas e, de um modo geral, a um ou mais raciocínios que participaram da construção do julgado. O que não se admite, nas razões da apelação, é a simples reprodução da petição inicial, da contestação, da réplica, dos memoriais finais ou de outros arrazoados existentes no processo, sem que o apelante identifique o erro judicial e justifique sua irresignação, pois a ausência dessa dialética repercute na regularidade formal do recurso, cuja falta induz a inadmissibilidade dele. Por simetria aos artigos 322 e 324, o pedido na apelação também deve ser certo e determinado, embora adstrito à reforma ou decretação de nulidade da decisão impugnada. Logo, ele deve ser expresso, determinado quanto à qualidade e, em regra, definido quanto à quantidade, embora se admita, neste aspecto, o pedido genérico nas ações universais, se o autor não pode individuar os bens demandados; quando não for possível determinar, desde logo, as consequências do ato ou fato; e quando a determinação do objeto ou do valor da condenação dependa de ato que deva ser praticado pelo réu (art. 324, § 1º). Contudo, porque a interpretação do pedido considerará o conjunto da postulação e observará o princípio da boa-fé (art. 322, § 2º), o arrazoado da apelação precisa ser contextualizado no processo, o que significa examiná-lo à luz da petição inicial, da contestação, da reconvenção e de outras postulações incidentes eventualmente existentes, de modo que a pretensão recursal, assim também aquele veiculado nas contrarrazões, pode realizar remissões aos pedidos já deduzidos em outras peças processuais. Também é nas razões da apelação que o recorrente pode apresentar o pedido de concessão do efeito suspensivo, nas hipóteses do § 1º do artigo 1.012, cujo deferimento pelo relator fica na dependência da demonstração da probabilidade de provimento do recurso ou, sendo relevante a fundamentação, se houver risco de dano grave ou de difícil reparação, decorrente do cumprimento provisório da sentença. Da mesma forma, é na petição deste recurso que o apelante pode pretender, do relator, o deferimento de tutela provisória pertinente ao caso concreto, seja ela cautelar, antecipada ou de evidência, o que fará com apoio no parágrafo único do artigo 299 e no inciso II do artigo 932.
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MACIEL, Daniel Baggio. A regularidade formal da apelação no novo Código de Processo Civil. Araçatuba: Página eletrônica Isto é Direito, junho de 2018

sexta-feira, 8 de junho de 2018

A APELAÇÃO NO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

O conceito da apelação foi substancialmente ampliado pelo artigo 1.009 do Código de 2.015, pois o Código de 1.973 apenas proporcionava o manejo dela para postular a decretação de nulidade ou a reforma da sentença com ou sem resolução de mérito. No Código atual, a apelação segue como o recurso adequado para veicular estas pretensões, cumulativamente ou não, mas agora ela também pode conter a impugnação preliminar de uma ou mais decisões interlocutórias proferidas na fase de conhecimento do processo, contra as quais o artigo 1.015 não oportuniza o agravo de instrumento e que, por esta razão, não precluem enquanto não esgotado o prazo do apelo e das respectivas contrarrazões. É assim porque o novo Código previu o cabimento do agravo de instrumento apenas contra algumas decisões interlocutórias emitidas no módulo cognitivo do processo (art. 1.015) e, ao fazê-lo, assentou que os demais pronunciamentos da mesma espécie só poderão ser contrastados em preliminar de apelação, eventualmente interposta contra a decisão final, ou na contrariedade a este recurso (§ 1º do art. 1.009). Logo, é visível que a cumulação de pretensões facultada na apelação e nas sucessivas contrarrazões acaba atribuindo novas dimensões à devolutividade que a caracteriza (art. 1.013), que pode compreender apenas uma, algumas ou todas as decisões proferidas naquela fase procedimental, contanto que não alcançadas pela preclusão, além de reunir um número maior de fundamentos, matérias, teses, questões, pontos e argumentos. Apesar da aparente simplicidade do § 1º do artigo 1.009, ele suscita algumas indagações que merecem ser respondidas desde já. Uma delas diz respeito ao cabimento ou não da apelação para impugnar apenas decisão interlocutória que não precluiu durante o referido módulo. Outra está ligada à dependência ou não das respectivas contrarrazões ao seguimento da apelação para julgamento, quando a contrariedade a este recurso combater decisão interlocutória não preclusa. Finalmente, a terceira inquirição associa-se à adequação ou não da apelação adesiva e das respectivas contrarrazões para hostilizar decisão que se encontrar nesta circunstância. Longe de ser óbvia, mesmo porque no direito não há obviedades, a resposta ao primeiro questionamento é relativamente simples, pois recusar o cabimento da apelação para impugnar apenas decisões interlocutórias que ainda não precluíram, significa torná-las irrecorríveis caso a parte prejudicada por alguma delas saia vitoriosa na sentença, afinal, ela teria que suportar a lesividade decorrente daquele pronunciamento jurisdicional, por não reunir interesse em contrastar este último, o que subverteria seriamente a garantia do devido processo legal, em especial o contraditório por ela abarcado. A título de exemplo, imagine que o juiz da causa profira uma decisão interlocutória e imponha ao autor as reprimendas que o artigo 81 dedica ao litigante de má-fé, mas que os pedidos iniciais sejam julgados integralmente procedentes na sentença. Porque a referida interlocutória não está catalogada dentre as hipóteses de agravo de instrumento pelo artigo 1.015, o autor não poderá impugná-la imediatamente e, vitorioso na sentença, também não conseguiria contrastá-la na apelação. Portanto, considerando a unicidade do recurso legalmente previsto para as decisões interlocutórias que não precluíram na fase de conhecimento e a sentença, bem como a dissociação dos resultados de cada uma delas, é de se admitir a apelação interposta apenas para revisar um ou mais pronunciamentos jurisdicionais daquela espécie. Ademais, considerando que as contrarrazões da apelação também podem ser utilizadas para que a parte impugne decisões interlocutórias que não precluíram durante a fase cognitiva, tal qual aquela que mencionamos para fins didáticos, fica claro que o § 1º do artigo 1.009 defere ao jurisdicionado duas alternativas: apelar do pronunciamento que lhe impôs algum prejuízo (v.g. penalidades pela litigância de má-fé) ou, estrategicamente, aguardar o eventual apelo do adversário e contrastar, na resposta a este recurso, a decisão interlocutória que lhe interessa revisar. Porém, há que se fazer duas importantes observações conforme a alternativa adotada pela parte. Se ela optar pela apelação da decisão interlocutória que ainda não precluiu, seu recurso não está atrelado a qualquer condição, senão apenas aos pressupostos legais de admissibilidade dele, mas se a escolha recair na impugnação daquele ato jurisdicional nas contrarrazões do apelo, o julgamento desta pretensão ficará na dependência da admissibilidade do recurso e da inocorrência de desistência dele. Esta nossa percepção decorre do fato de que as contrarrazões são, por natureza e essência, uma resposta facultativa ao recurso da parte contrária, mesmo que nela se permita formular uma ou mais pretensões a serem decididas pelo tribunal, o que, aliás, nunca foi vedado pela legislação processual, a exemplo do pedido de condenação do recorrente a pagar ao devedor o dobro do que houver cobrado ou o equivalente do que dele exigir, quando o credor demandar por dívida já paga, sem ressalvar as quantias recebidas ou, respectivamente, pedir mais do que lhe for devido (CC, art. 940). Por sua vez, também é preciso advertir que opção da parte pela apelação, independentemente de haver ou não sucumbência recíproca na sentença, obstava que ela impugne, nas contrarrazões ao recurso da outra, as decisões interlocutórias proferidas na fase de conhecimento e que não se sujeitaram ao agravo de instrumento. É assim porque a interposição da apelação contra a sentença enseja a preclusão consumativa para que o recorrente impugne, nas contrarrazões ao apelo do adversário, as decisões interlocutórias que poderia haver questionado no recurso do qual já se valeu. Igual raciocínio, associado à preclusão consumativa, também se aplica à parte que, mesmo vitoriosa na sentença, optar pela apelação contra alguma decisão interlocutória que ainda não houver precluído, oportunidade em que ela deve concentrar as impugnações a todas demais decisões da mesma espécie, já que não poderá questioná-las mais tarde, nas contrarrazões à eventual apelação da parte contrária. De resto, porque a apelação adesiva se volta, nuclearmente, contra a sentença da qual resultar a sucumbência recíproca, é inimaginável utilizá-la para questionar uma ou mais decisões interlocutórias que não precluíram durante o módulo cognitivo do processo, ainda que se invoque o argumento de que o prazo deste recurso é o mesmo das contrarrazões ao apelo principal e que, por economia, os respectivos conteúdos poderiam ser reunidos em uma só peça processual, afinal, nenhum racionamento significativo haverá na hipótese, além do que, definitivamente, não é esta a forma escolhida pelo Código para que o apelado combata esta espécie de pronunciamento jurisdicional. Porque o objeto da apelação adesiva é a sentença com o mencionado resultado, não as decisões interlocutórias imunizadas contra a preclusão na fase de conhecimento do processo, também não se pode admitir a vulneração destes pronunciamentos nas contrarrazões desse recurso subordinado, inclusive em virtude da preclusão temporal, que já haverá se consumado na ocasião. Em um arremedo de conclusão, as oportunidades que as partes têm para impugnar as mencionadas decisões interlocutórias, sob pena de preclusão, são a apelação e as respectivas contrarrazões, mas não é lícito ao mesmo sujeito do processo fracionar suas irresignações, apelando de um ou alguns pronunciamentos decisórios e contrastando os demais nas contrarrazões. 
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MACIEL, Daniel Baggio. O conceito da apelação no novo Código de Processo Civil. Araçatuba: Página eletrônica Isto é Direito, junho de 2018. 

sexta-feira, 9 de março de 2018

O EFEITO SUSPENSIVO NOS RECURSOS DO NOVO CPC

Porque constituem expressão da função jurisdicional da qual o Estado está investido, as decisões judiciais são proferidas para serem aplicadas imperativamente, não para que permaneçam apenas no plano da dialética entre o juiz e as partes. É esta a razão pela qual os pronunciamentos jurisdicionais são naturalmente dotados de eficácia, isto é, de força e de efeitos. O efeito suspensivo consiste justamente na capacidade que alguns recursos possuem de sustar essa efetividade congênita das decisões judiciais, impedindo que elas sejam prontamente implementadas. No sentido mais amplo desta expressão, ele obsta a executividade do pronunciamento jurisdicional, enquanto o respectivo recurso não for decidido. Este efeito suscita um conjunto de particularidades que merecem enfrentamento desde logo. Uma delas diz respeito à extensão da suspensividade, quando o recurso interposto impugna somente uma parcela ou capítulo do pronunciamento jurisdicional, a exemplo da apelação que se insurge apenas contra um dos pedidos julgados procedentes na sentença. Em princípio, nesta particular situação, a suspensividade do recurso compreenderá apenas aquela fração do julgado que foi objeto de impugnação, o que permitirá a efetivação imediata das demais que não foram contrastadas e que, portanto, se tornaram incontroversas. Contudo, pode ocorrer de a parcela do pronunciamento abrangida pelo recurso guardar uma relação de dependência com outra que não foi por ele compreendida, o que provoca a ampliação da suspensividade para também alcançá-la, a exemplo da apelação que impugna a rescisão contratual decretada no julgado, mas que não contrasta a multa legal ou pactual imposta em razão dela, bem assim o recurso que contraria a condenação ao pagamento de uma indenização, mas que não se insurge contra os juros aplicados sobre o respetivo valor. Outra situação importante acabou normatizada pelo artigo 1.005 do Código. Por força dele, quando há litisconsortes e apenas um (ou alguns) deles recorrer, o efeito suspensivo se estende aos demais, exceto se os seus interesses forem distintos ou opostos. Exemplo da primeira parte desta regra é o do litisconsorte passivo que recorre sustentando não existir defeito no negócio jurídico do qual participou com os demais réus, caso em que a suspensividade do recurso favorece todos eles. Protótipo da parte final do artigo 1.005 é o do litisconsorte que recorre contra o indeferimento de indenização decorrente de acidente automobilístico, enquanto a outra vítima se mantém inerte diante da sentença e, por esta razão, acaba demandada na execução dos honorários de sucumbência. Ainda resta considerar que o efeito suspensivo pode ser legal ou decisional, divisão esta que emana do artigo 995. Legal é a suspensividade imposta por dispositivo de lei e que se opera com a simples interposição do recurso, não obstante a manutenção dela fique na dependência da admissibilidade do recurso, cujo pronunciamento é dotado de eficácia meramente declaratória e, portanto, retroativa ao momento da interposição. Exemplo de norma legal impondo o efeito suspensivo está no caput do 1.012, segundo a qual a apelação tem o efeito suspensivo, exceto nas situações relacionadas no parágrafo 1º e em outras hipóteses previstas em lei. Decisional é a suspensividade deferível pela autoridade judicial, se satisfeitos os pressupostos definidos pelo parágrafo único do artigo 995, a saber: a) requerimento do recorrente; b) risco de dano grave, de difícil ou impossível reparação, derivado da efetivação imediata da decisão recorrida; c) demonstração da probabilidade do provimento do recurso. Apesar da razoável clareza do referido parágrafo, ele comporta algumas reflexões que podem escapar ao intérprete menos atento. A primeira é a de que não é legítimo impor ex officio a suspensão da eficácia da decisão recorrida, mas apenas se o recorrente pretendê-la, até porque a parte final deste dispositivo legal exige que ele demonstre a probabilidade de provimento do recurso, não apenas que a autoridade judicial competente para apreciá-lo se convença desta plausividade. A segunda explicação está relacionada ao risco de dano grave, de difícil ou impossível reparação, decorrente da eficácia do pronunciamento jurisdicional impugnado. O risco aqui mencionado denota um juízo de mera probabilidade do dano emanável da decisão recorrida, não de certeza da causação dele. Portanto, não é preciso que o órgão judicial se certifique de que a decisão contrastada provocará lesão ao recorrente, senão apenas que tenha a perspectiva de que o dano é factível. Porém, também não basta a simples ilação de algum prejuízo jurídico para aquele maneja o recurso. Ao contrário disso, é necessário que o órgão judicial se convença da potencialidade concreta dele, isto é, que a lesão é consequência natural ou circunstancial da efetividade da decisão contestada. Aliás, entende-se por dano grave a lesão jurídica capaz de impedir ou de dificultar sobremodo exercício do direito do qual o jurisdicionado é titular, no que se inclui o risco ao resultado útil do próprio recurso, do processo ou de alguma das suas fases. Por sua vez, a dificuldade ou a impossibilidade de reparação deste dano não se relaciona com o ressarcimento monetário da lesão cuja ocorrência é provável, mas sim com entraves importantes para a recondução das partes ao estado em que elas se encontravam antes da causação dele. Logo, se a autoridade judicial antever embaraço importante para a restauração da situação fática ou jurídica em que as partes se encontravam antes do julgamento final do recurso, satisfeito está este pressuposto de concessão do efeito suspensivo. Enfim, só resta lembra que a regra contida no caput do artigo 995 é a de que os recursos previstos pelo Código não impedem a eficácia da decisão, além do que o deferimento da suspensividade recursal é medida excepcional, que não se insere no poder discricionário dos magistrados. Corresponde, isto sim, a um poder vinculado aos pressupostos examinados, tanto que a decisão que defere ou indefere o pedido de efeito suspensivo comporta impugnação mediante novo recurso, geralmente o agravo interno (art. 1.012).
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MACIEL, Daniel Baggio. O efeito suspensivo nos recursos do novo Código de Processo Civil. Isto é direito: Araçatuba, 2018.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

RESPONSABILIDADE CIVIL DO JUIZ NO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

O artigo 143 do novo Código de Processo Civil regula a obrigação de indenizar que pode vincular o magistrado nas situações previstas nos incisos I e II, cuja criação tem a finalidade de impedir que esse agente público acabe responsabilizado por outros motivos que poderiam tolhê-lo da necessária independência com a qual deve exercer suas funções. A título de exemplo, pretendeu-se obstar a responsabilização do magistrado que tivesse suas decisões reformadas em grau de recurso, mesmo porque, não fosse assim, bastaria que ele manifestasse orientação diversa daquela adotada pelo tribunal para que fosse compelido a reparar os danos causados por seus pronunciamentos. O direito, ciência do bom senso e da racionalidade, jamais chegaria ao ponto de responsabilizar o magistrado por aderir a essa ou aquela diretriz de entendimento e, tampouco, por falhas involuntárias que refletem, na verdade, característica indissociável da espécie humana, tal qual proclamado pela 1ª Câmara do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, em acórdão ementado nos seguintes termos (RJTJSP 48, p. 95): “A responsabilidade civil do magistrado somente se configura quando se apura tenha ele agido com dolo ou fraude e não pelo simples fato de haver errado. A independência funcional, inerente à magistratura, tornar-se-ia letra morta se o juiz, pelo fato de ter proferido decisão neste ou naquele sentido, pudesse ser sancionado.” Portanto, em atenção aos incisos do artigo 143, o magistrado só pode ser civilmente responsabilizado se, no exercício das suas funções, proceder com dolo ou fraude, assim também nos casos de recusa, omissão ou retardamento, sem justo motivo, de providência que deva ordenar de ofício ou a requerimento da parte, situações estas em que sua responsabilidade decorre de culpa stricto sensu, embora apenas se caracterize depois que a parte requerer ao juiz que determine a providência e o requerimento não for apreciado no prazo de dez dias. Pelo exposto, não é difícil perceber que a responsabilidade civil do magistrado é de natureza subjetiva e exige a concorrência dos seguintes pressupostos: conduta lesiva, dano, nexo causal e culpa em sentido amplo, mais propriamente o dolo na hipótese do inciso I e, no mínimo, negligência, imprudência ou imperícia nas situações do inciso II. Porém, diferente é a responsabilidade do Estado nestes casos, pois o parágrafo 6º do artigo 37 da Constituição Federal a torna objetiva ao estabelecer que “as pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa”. No mais, não há como deixar de realçar uma inconstitucionalidade que, embora notável, pode ser imperceptível aos menos avisados que examinarem isoladamente o caput do artigo 143, em que se acha a previsão de que o magistrado só responde regressivamente pelos prejuízos que causar, o que parece impedir o jurisdicionado de demandar diretamente contra ele a indenização que considerar devida. Definitivamente, a blindagem jurídica que esse dispositivo legal procurou construir em torno dos magistrados, ao compelir os lesados a buscar ressarcimento apenas contra o Estado nas situações previstas nos incisos I e II do artigo 143, não é capaz de resistir ao calibre das garantias assentadas nos incisos V, X e XXXV da Constituição Federal, o que pode ser declarado “incidenter tantum” no ambiente de processo individual originário de ação indenizatória promovida em face desse agente público.
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MACIEL, Daniel Baggio. Responsabilidade civil do juiz no novo Código de Processo Civil. Página eletrônica Isto é Direito. Julho de 2015.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A ACEITAÇÃO DA DECISÃO, A RENÚNCIA AO DIREITO DE RECORRER E A DESISTÊNCIA DO RECURSO NO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

Além dos pressupostos de admissibilidade examinados nos artigos antecedentes, o recebimento dos recursos para processamento e julgamento também depende da inexistência de fato impeditivo ou extintivo do direito de recorrer. Dentro desse gênero de fatos processuais estão desistência do recurso, a renúncia ao direito de recorrer e a aceitação da decisão. A primeira corresponde a um fato extintivo do recurso, ao passo que as duas últimas constituem fatos impeditivos do direito de manejá-lo. Aceitação da decisão - Se os legitimados recursais podem impugnar os pronunciamentos jurisdicionais, é intuito que eles também podem aceitá-los. Logo, pode-se dizer que a aceitação da decisão consiste em uma manifestação unilateral de vontade, mediante a qual o legitimado exterioriza, de forma tácita ou expressa, sua aquiescência aos termos do julgado (art. 1.000). A aceitação expressa ocorre quando aquele que titulariza o poder de recorrer insere textualmente nos autos sua concordância com determinada decisão judicial, o que exige do advogado poderes especiais outorgados por seu constituinte (art. 105). A aceitação tácita se aperfeiçoa quando o legitimado recursal pratica, sem qualquer reserva, algum ato incompatível com a vontade de impugnar o pronunciamento jurisdicional (art. 1.000, parágrafo único), a exemplo do inquilino que desocupa espontaneamente o imóvel objeto da locação, após tomar ciência da decisão que decreta o desalijamento. Porém, vale a advertência de que a aceitação tácita pressupõe a realização de algum comportamento que releve, de modo inequívoco, a intenção de anuir ao julgado, afinal, ela corresponde a um ato restritivo do direito de recorrer e, por essa razão, deve ser interpretada restritivamente. É por isso que não deve ser entendida como aceitação tácita a conduta do réu que cumpre determinada decisão cominatória, sob pena de incorrer em multa diária computada desde a intimação. Independentemente de ser expressa ou tácita, a aceitação da decisão acarreta a preclusão lógica do direito de recorrer, não reclama autorização da parte contrária ou do eventual litisconsorte, prescinde de homologação judicial e produz efeito imediato. Renúncia ao direito de recorrer - Certo de que o recurso é um direito processual, não há dúvida de que as partes absolutamente capazes podem dispor livremente dele, após a emissão do pronunciamento jurisdicional, independentemente da natureza disponível ou não do direito rivalizado no processo (art. 999). É assim porque a renúncia ao recurso não alcança o direito material titularizado por aquele que renunciou. Embora a doutrina majoritária edificada sob a égide do Código de 1.973 não admitisse a renúncia prévia ao direito de recorrer, o artigo 190 do Código de 2.015 eliminou a controvérsia sobre o tema ao prever que, versando a causa sobre direitos que admitam autocomposição, é lícito às partes plenamente capazes convencionar sobre seus ônus, poderes, faculdades e deveres processuais, antes ou durante o processo. Logo, se o direito envolvido no processo tolerar autocomposição, os jurisdicionados dotados de capacidade civil plena estão autorizados a celebrar um negócio jurídico, antes mesmo de instaurada a relação processual ou no curso dela, contendo a renúncia ao direito de recorrer, inclusive em caráter antecedente ao pronunciamento jurisdicional nela compreendido. Aliás, a leitura atenta do citado artigo 190 também permite a conclusão de que é igualmente possível a pactuação da chamada “cláusula de reserva”, em que a parte ressalva o poder de recorrer em determinadas circunstâncias especificadas na convenção firmada com a outra. Exemplo desse tipo de negócio processual é aquele em que as partes limitam os graus de jurisdição a que submeterão a apreciação da lide. No entanto, é necessário realçar que, nos termos do parágrafo único do artigo 190, incumbe ao juiz da causa controlar a validade dessa espécie de convenção e recusar a aplicação dela nos casos de nulidade ou inserção abusiva em contrato de adesão ou no qual a parte se achar em manifesta situação de vulnerabilidade, seja ela demandante ou demandada. Ademais, assim como a aceitação da decisão, a renúncia exige poderes especiais do advogado do renunciante (art. 105), prescinde de autorização da parte contrária e do litisconsorte, dispensa homologação judicial e produz efeito imediato. Porque ela restringe o exercício de uma faculdade processual, a renúncia também deve ser interpretada restritivamente e não se sujeita a retratação dentro do processo. Desistência do recurso - A desistência consiste em uma manifestação unilateral da vontade do recorrente de que o recurso já manejado não seja decidido. Portanto, a desistência difere da renúncia porque esta é realizada em caráter antecedente e impede a utilização do recurso, ao passo que aquela é sempre subsequente e extingue o direito de recorrer. Nos moldes do artigo 105, a desistência igualmente exige poderes especiais do advogado do recorrente e, segundo a dicção ao artigo 998, ela pode ser apresentada a qualquer tempo, ficando dispensada a anuência do recorrido ou dos litisconsortes.  Porém, conforme previsto pelo parágrafo único do artigo 998, a desistência do recurso não impede a análise da questão cuja repercussão geral já tenha sido reconhecida e daquela objeto de julgamento de recursos extraordinários ou especiais repetitivos. Isto significa que, proclamada a repercussão geral em determinado recurso extraordinário ou selecionado qualquer desses recursos para julgamento por amostragem, a desistência formulada pelo recorrente não impedirá que o tribunal examine a questão neles suscitada. Deve ser assim porque o reconhecimento da repercussão geral da questão constitucional discutida no recurso extraordinário certifica a existência de controvérsia relevante do ponto de vista econômico, político, social ou jurídico, que ultrapassa os interesses subjetivos na causa e cuja resolução não interessa apenas ao recorrente que dele desistiu. O mesmo ocorre quando o recurso especial ou extraordinário já foi admitido para processamento e julgamento por amostragem, pois a apreciação da questão neles discutida passa a interessar a todos os jurisdicionados que, embora em processos distintos, se encontrem na mesma situação jurídica debatida pelo recorrente e que será examinada pelo Superior Tribunal de Justiça ou Supremo Tribunal Federal, respectivamente. Daí porque não faz sentido aplicar o inciso III do artigo 932 para, simplesmente, obstar o seguimento do recurso alcançado pela desistência nessas circunstâncias.
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MACIEL, Daniel Baggio. A aceitação da decisão, a renúncia ao direito de recorrer e a desistência do recurso no novo Código de Processo Civil. Página eletrônica Isto é Direito. Abril de 2015.
NOTA RELEVANTE: Este artigo foi composto segundo as previsões constantes do projeto de lei que institui o novo Código de Processo Civil.

sábado, 21 de março de 2015

A REGULARIDADE FORMAL DOS RECURSOS NO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

Conforme previsto pelo artigo 188 do Código de 2.015, os atos processuais independem de forma determinada, salvo quando a lei expressamente a exigir. No tocante aos recursos, além da forma escrita, a legislação exige um conjunto de requisitos a serem satisfeitos para que a respectiva peça processual seja considerada formalmente regular e possa dar início ao correspondente módulo recursal. Porém, semelhantemente às petições iniciais, que comportam emendas e completamentos tendentes a eliminar defeitos e irregularidades capazes de dificultar ou impedir o julgamento de mérito (art. 321), as petições recursais também admitem correções de eventuais defeitos suscetíveis de ensejar a inadmissibilidade do recurso, tanto assim que o parágrafo único do artigo 932 foi enfático ao estabelecer que: “Antes de considerar inadmissível o recurso, o relator concederá o prazo de cinco dias ao recorrente para que seja sanado vício ou complementada a documentação exigível.” Portanto, detectada a ausência de algum requisito formal da petição recursal, pressuposto este que também compreende a juntada de peças e documentos que a lei considere obrigatória, o relator não poderá rejeitar o recurso de plano e deverá intimar o recorrente para corrigir o respectivo vício ou completar os documentos faltantes. Apenas na hipótese de o recorrente não cumprir a diligência é que o relator estará autorizado a inadmitir o recurso, mediante decisão unipessoal. Além dessa regra genérica localizada no parágrafo único do artigo 932, o Código veicula outras que igualmente permitem algumas adaptações formais no recurso interposto. Elas estão previstas no parágrafo 3º do artigo 1.017, nos parágrafos 3º e 4º do artigo 1.024, bem como no artigo 1.032. A primeira delas refere-se ao agravo de instrumento, cuja petição deve ser instruída com cópias da petição inicial, da contestação, da petição que ensejou a decisão agravada, da própria decisão recorrida, da certidão da respectiva intimação ou outro documento oficial que comprove a tempestividade e das procurações outorgadas aos advogados do agravante e do agravado (art. 1.017, inc. I) ou, se for o caso, com uma certidão cartorária que ateste a inexistência de qualquer desses documentos (art. 1.017, inc. II). Atento a essa peculiaridade do agravo de instrumento e a possíveis lapsos do agravante, o parágrafo 3º do artigo 1.017 determina que, ausente qualquer das mencionadas peças ou verificado outro vício que comprometa a admissibilidade dele, o relator deverá aplicar o disposto no parágrafo único do citado artigo 932, de modo a oportunizar a regularização formal do recurso. Por sua vez, o parágrafo 2º do artigo 1.024 permite que o tribunal receba os embargos de declaração como agravo interno, se entender ser este o recurso cabível, hipótese em que determinará previamente a intimação do recorrente para complementar suas razões no prazo de cinco dias, de modo a compatibilizá-las com as exigências formais do artigo 1.021, parágrafo 1º. Ao disciplinar uma genuína situação de aditamento recursal, o parágrafo 4º do artigo 1.024 deixou assentado que, caso o acolhimento dos embargos de declaração resulte a modificação da decisão impugnada, o embargado que já tiver interposto outro recurso contra a decisão originária tem o direito de completar ou alterar suas razões, nos exatos limites da modificação, no prazo de quinze dias contados da intimação da decisão proferida nos aclaratórios. De outro lado, ao normatizar a fungibilidade entre o recurso especial e o recurso extraordinário, o artigo 1.032 determina que o relator no Superior Tribunal de Justiça conceda o prazo de quinze dias para que o recorrente demonstre a existência da repercussão geral e se manifeste sobre a questão constitucional versada no processo, quando entender que o recurso adequado é o extraordinário, ao que se seguirá o encaminhamento dos autos ao Supremo Tribunal Federal. Feitas essas observações, cumpre acrescentar que, embora a legislação processual defina os requisitos formais de cada modalidade recursal, as respectivas petições possuem algumas exigências em comum, dentre as quais estão a identificação das partes e as suas qualificações, as razões com as quais o recorrente impugna o correspondente pronunciamento jurisdicional e o pedido de nova decisão, afinal, se o recurso é uma derivação do direito de ação, é natural que ele expresse os três elementos que a caracterizam, assim as partes, a causa de pedir e o pedido (art. 337, § 2º). Especificamente no tocante às razões recursais, é imperioso ressaltar que a jurisprudência formada em todos os tribunais do país exige que o recorrente delas se utilize para impugnar, motivadamente, os fundamentos invocados pela decisão recorrida e não se limite a reproduzir o conteúdo da petição inicial ou da contestação, sob pena de violação ao princípio da dialeticidade e de inadmissão do recurso. No mais, é intuitivo que a petição recursal contenha o endereçamento ao órgão jurisdicional competente para o julgamento da pretensão relacionada à reforma, à declaração de nulidade, ao esclarecimento ou à integração da decisão recorrida, assim também àquele que possuir competência para a correção do erro material nela detectado. Enfim, cumpre observar que a indicação do número de registro dos autos na instância de origem ou, conforme o caso, no tribunal é uma decorrência lógica de qualquer peticionamento, pois a falta desse apontamento impede que o escrivão ou o chefe de secretaria identifique o processo em que o recurso foi interposto (art. 206). Porque cada tipo de recurso apresenta particularidades relacionadas à regularidade formal, os requisitos a serem observados na construção das respectivas peças processuais serão examinados separadamente, em publicações acadêmicas que virão na sequência.
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MACIEL, Daniel Baggio. A regularidade formal dos recursos no novo Código de Processo Civil. Página eletrônica Isto é Direito. Março de 2015.
NOTA RELEVANTE: Este artigo foi composto segundo os dispositivos constantes do projeto de lei que institui o novo Código de Processo Civil.

quinta-feira, 12 de março de 2015

O INTERESSE RECURSAL NO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

Em linhas gerais, pode-se dizer que há interesse recursal quando houver a “necessidade” da utilização do recurso para alcançar a revisão de algum pronunciamento jurisdicional que, pretensamente, estiver caracterizado por um erro de julgamento ou de procedimento, obscuridade, contradição, omissão ou algum erro material. Contudo, é importante frisar que o interesse recursal não depende da existência concreta de qualquer desses vícios, mas sim da verificação de algum deles sob a perspectiva do legitimado, que fundar o recurso na falta de simetria entre a sua pretensão e o resultado da decisão, em alguma nulidade capaz de impactar na validade dela, na ausência de clareza do pronunciamento jurisdicional, na inserção de proposições inconciliáveis na dicção dele, na abstenção do exame de algum ponto ou questão sobre a qual o órgão julgador devia se pronunciar ou, então, em alguma imprecisão de grafia cuja correção entenda necessária para evitar prejuízo. Embora sutil, essa ressalva é importante para mostrar que o reconhecimento judicial da inexistência concreta desses vícios não determina a inadmissão do recurso, mas sim o desprovimento dele. Trata-se, pois, de um julgamento de mérito, não de um pronunciamento sobre a admissibilidade do recurso, que se contenta com o apontamento nuclear de qualquer das situações em referência. Em termos mais singelos, mas sem embargo da orientação doutrinária que costuma associar o interesse recursal à sucumbência, preferimos traduzir esse pressuposto de admissibilidade dos recursos na “lesividade” gerada pela decisão judicial a quem figura como parte, ao terceiro que detenha interesse jurídico no resultado do processo, ao interesse ou ao sujeito cuja qualidade determinou a iniciativa ou a intervenção processual do Ministério Público, à coletividade substituída em juízo por algum legitimado extraordinário. A propósito, não há dúvida de que a existência da sucumbência é indicativa da lesividade debitável à decisão judicial, mas é imperioso observar que essa expressão é bem mais abrangente e compreende não só a derrota no pronunciamento jurisdicional, mas também a nulidade da decisão, a obscuridade, a contradição, a omissão e o erro material, pois todos esses defeitos são capazes de desencadear algum tipo de prejuízo. Não fosse assim, não seria possível explicar o interesse recursal do “parquet” nos processos em que ele funciona como fiscal da ordem jurídica, afinal, nessa qualidade o Ministério Público jamais é sucumbente. Do mesmo modo, não haveria como justificar o interesse nos embargos de declaração, que podem ser opostos não só pela parte sucumbente, mas também por aquela que sair vitoriosa no pronunciamento jurisdicional, pelo terceiro prejudicado e pelo Ministério Público, quer na qualidade de parte ou de “custos legis”. Além disso, há casos em que mesmo a parte vitoriosa possui interesse na utilização do recurso para reformar o pronunciamento jurisdicional que lhe é dirigido. É o que ocorre quando o fundamento aduzido na decisão for suscetível de causar algum gravame ao vencedor, o que não ocorreria se o pronunciamento jurisdicional viesse apoiado em fundamento diverso, tal qual a sentença que não acolhe a alegação de pagamento nos embargos do devedor, mas que extingue a execução de título extrajudicial em virtude do reconhecimento da prescrição suscitada pelo embargante, caso em que o embargado pode retornar a juízo mediante sucessiva ação cognitiva. No mais, é preciso acrescentar que apenas há interesse recursal, na modalidade “necessidade”, quando a legislação processual não disponibilizar ao legitimado outro meio mais singelo para contrastar a decisão judicial e obter o resultado idêntico àquele que seria proporcionado pelo recurso. A título de exemplo, não há interesse na utilização de recurso contra a decisão que proclama a existência dos respectivos pressupostos de admissibilidade e determina o processamento dele, pois o recorrido pode questionar esse pronunciamento jurisdicional em sede de contrarrazões. É exatamente por essa razão que o parágrafo 6º do artigo 1.007 torna irrecorrível da decisão com a qual o relator relevar a pena de deserção e fixar prazo para a efetivação do preparo, afinal, o recorrido pode suscitar essa questão em sua resposta recursal, oportunidade em que também lhe é assegurado contrariar o motivo afirmado pelo recorrente para não haver satisfeito esse pressuposto de admissibilidade no ato da interposição do recurso.
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MACIEL, Daniel Baggio. O interesse recursal no novo Código de Processo Civil. Página eletrônica Isto é Direito. Fevereiro de 2015. 
NOTA RELEVANTE: Este artigo foi composto segundo os dispositivos constantes do projeto de lei que institui o novo Código de Processo Civil.