sábado, 8 de janeiro de 2011

LEIA A ÍNTEGRA DO DISCURSO AOS FORMANDOS DO UNITOLEDO

Excelentíssima Pró-Reitora Acadêmica, Excelentíssimo Coordenador da Faculdade de Direito de Araçatuba, Excelentíssimos Professores, familiares e convidados presentes, Senhores formandos,
Inicialmente e do fundo do meu coração, quero deixar registrada a minha sincera gratidão pela honrosa homenagem que os senhores dedicaram a mim nesta solenidade. A propósito, lembro que a presente cortesia não é direcionada exclusivamente a este professor que vos fala pela última vez, mas sim a todo o quadro docente desta respeitável instituição de ensino, afinal, quando um paraninfo é escolhido pelos formandos, ele apenas representa o conjunto daqueles a quem foi confiada a sagrada missão de ensinar. Assim, respeitosamente e pedindo vênia aos senhores, estendo aos demais professores o esplendor desta homenagem que, apenas fortuitamente, coube a mim receber.
Em um momento glorioso como o desta formatura, que é caracterizado por um conjunto de emoções positivas de todos os presentes, mas também por uma forte expectativa do futuro profissional que se aproxima para cada um dos senhores, sempre se espera do paraninfo um último conselho, uma última consideração, uma última palavra que seja capaz de motivá-los e de atenuar-lhes os rigores da carreira que cada um escolheu exercer.
Se é assim, peço licença para não falar simplesmente “uma palavra”, mas sim “de uma palavra” que, se for vivida com a profundidade necessária, certamente proporcionará aos senhores as realizações e a felicidade que cada um projetou para si e para a sua família. Essa palavra é, simplesmente, o “amor”.
Ao ouvi-la, provavelmente alguns dos senhores devem estar se perguntando: “o que o amor tem a ver com a minha formatura?” Para aqueles que ainda não encontraram uma resposta, lembro que foi graças ao amor de seus pais que muitos dos senhores tiveram a dádiva de cursar a universidade da qual hoje saem graduados. Para outros, foi graças ao amor de seus maridos e de suas esposas que essa magnífica conquista se tornou possível. A par dessas formas de amor, também foi graças ao amor dos seus mestres pela docência que cada um dos senhores pôde receber, durante as mais de mil manhãs e noites que compõem a graduação em Direito, um universo imensurável de informações, de experiências e de orientações que, se bem recordadas, farão toda a diferença nas suas futuras atuações.
Porém, deste momento em diante, inobstante essas manifestações de amor permaneçam candentes na vida de todos, outras precisam ser vividas com igual intensidade no coração, na mente e no comportamento de cada um dos senhores para que se torne concretamente realizável tudo aquilo que idealizaram. Essas outras formas de amor a que me refiro são: ao amor à justiça, o amor à sabedoria e, acima de tudo, o amor ao ser humano.
O AMOR À JUSTIÇA - Definitivamente, amar a justiça não significa louvar o Poder Judiciário ou ter compromisso com a vitória processual a qualquer custo. Aliás, ao contrário do que muitos acreditam mundo afora, o bom advogado não é, nunca foi e jamais poderá ser simplesmente aquele que sempre vence seu adversário diante de um juiz ou tribunal. Se assim fosse e porque em um estado de litigiosidade no mínimo um dos contendores não tem razão, todos nós seríamos forçados a acreditar que os advogados são, vez ou outra, instrumentos das mais perversas formas de injustiça, autênticos profissionais da discórdia, genuínos indutores de graves aflições na vida das pessoas que deles se socorrem. Se assim fosse, eu estaria, então, entres os primeiros a abandonar a toga. Meus queridos afilhados, saibam que nem sempre os vossos clientes terão razão e que, portanto, caberá a cada um empunhar a caneta somente para defender uma causa justa, em conformidade com o direito e com a melhor consciência. Sejam, enfim, os primeiros juízes de todo processo, os primeiros a decidir o que é ou não correto, os primeiros a dizer o que é justo. Se assim procederem, amarão a justiça dos homens.
O AMOR À SABEDORIA - A segunda forma de amor que, ao lado das demais, deve ser cultivada na vida de cada um dos senhores daqui em diante é o amor à sabedoria. A propósito, estejam certos de que a sabedoria é um dos poucos patrimônios intangíveis que alguém pode somar durante a vida, uma autêntica “cláusula pétrea” no rol das virtudes do homem, algo que, depois de adquirido, ninguém é capaz de ultrajar ou de subtrair. A sabedoria de que vos falo não se resume simplesmente ao domínio de um punhado de regras que o Direito edificou ao longo dos séculos. Sem dúvida, o conhecimento das regras jurídicas é importante para o exercício da nossa profissão, porém, mais importante é ter maturidade para saber aplicá-las na busca do bem. Aliás, acredito no bem mesmo quando não posso vê-lo, mesmo quando não consigo compreender exatamente porque determinadas coisas acontecem. Creio no bem como um dom permanente, como uma espécie de força indutora da nossa evolução pessoal e do aperfeiçoamento da nossa sociedade. Uma força que nos levou de um período histórico de intransigências e de sacrifícios humanos, até a era em que a dignidade do homem é bradada, em alta voz, por diversas nações. Minha crença sofre, mas não diminui com o fato de saber que estas não são realidades concretas para muita gente e em diversas partes do mundo. Porém, acredito que a direção correta é mais importante do que a velocidade empregada em nossas ações. Amem, pois, a sabedoria, porque ela toma debaixo da sua proteção todos aqueles que a buscam.
O AMOR AO SER HUMANO - Finalmente, a terceira forma de amor que, juntamente com as demais, deve ser nutrida por todos nós é o amor ao ser humano. Sem pretender examinar desta tribuna todas as dimensões do amor que devemos ao próximo, recordo aos senhores que homens e mulheres, crianças e adolescentes, adultos e idosos são a razão de ser do Direito, o núcleo e o motivo principal da existência dele. Logo, se alguém entre nós ainda não percebeu, lembro que o Direito ama o homem na medida em que busca, em primeiro plano, a felicidade deste em sua passagem terrena. Portanto, para amar o Direito é indispensável, antes de tudo, amar a condição humana. Quando digo amor ao ser humano, digo respeito e caridade, falo em tolerância e solidariedade, sobre compreensão e sensibilidade, digo sobre fraternidade e educação. Cultivem, pois, essas virtudes em relação ao próximo e saberão exatamente o que fazer com os conhecimentos que adquiriram em meia década de estudos jurídicos. Enfim, amem o ser humano como a si mesmo e, assim procedendo, amarão a justiça de Deus.
DESPEDIDA - Queridos afilhados, é hora de terminar, afinal, desde o discurso da posse de Barak Obama ficou convencionado entre os oradores que ninguém deve falar mais do que vinte minutos. Aliás, em matéria de discursos da presidência dos Estados Unidos, sigo apavorado desde que li o seguinte registro histórico: George Washington fez o menor discurso de posse da história americana, discurso este que foi composto por apenas 133 palavras. Willian Harrison fez o maior deles: com 8.433 palavras, num dia frio e tempestuoso em Washington. Ele morreu um mês depois, vítima de uma gripe altamente severa que contraiu naquela noite. Acredito que esta possa ser uma espécie de sina que recai sobre os oradores que falam além do seu tempo. Senhores pais e mães, somos nós que estamos no palco na noite de hoje, mas ela é toda dedicada a vocês. Aqui se comemora a educação que deram aos seus filhos. Eles estão criados, muito bem criados. Deste momento em diante eles partirão para conquistar o mundo, para nos suceder nas obras que começamos e em outras que a nossa geração sequer sonhou. Respirem fundo!

5 comentários:

Ana Cecilia disse...

Daniel...
simplesmente MAGNÍFICO !! Vc consegue transmitir e nos fazer sentir, durante suas aulas, o verdadeiro significado da palavra "amor" pelo Direito, exatamente como apresentado em seu discurso.
Parabéns...!!
Ana Cecilia

Carolina Boatto disse...

Professor!!! Fiquei emocionada ao ler seu discurso e gostaria de deixar registrado que você sempre foi e sempre será um grande exemplo de profissional. Ainda hoje lembro dos seus ensinamentos! Desejo muito sucesso pra você! Grande Abraço! Carolina Andreotti Boatto

Antonio Carlos Vasconcellos Zuquim disse...

Excelente discurso, me lembrou muito a Oraçao aos Moços de Rui Barbosa. parabens.

fernanda disse...

Professor, me emocionei na colação de grau e agora, lendo seu discurso, me emocionei novamente. É muito bom ter suas palavras de inspiração!
Sinto muitas saudades de suas aulas.
Parabéns!
Fernanda Simonatto

monique disse...

professor, mestre, inspiração e modelo de ser humano e profissional, simplesmente magnífico seu discurso